Quando começamos a experimentar a observação consciente é possível perceber as repetições, e com o despertar da presença também é possível perceber a continuidade dessas repetições. Vemos mais precisamente o que fazem os nossos sentidos, estando aptos para dissolver conceitos e condicionamentos antigos.

No início da pratica, os momentos de presença entre essas repetições estarão bem espaçados, porém, gradualmente esses momentos acontecerão com mais frequência e por mais tempo.

É neste ponto que começamos um “esforço” gentil, trazendo a nossa mente de volta, devagar e sempre, observando e compreendendo que o que uma vez consideramos sólido, eram apenas partes. Nós começamos a observar que todo o nosso ser e todo o nosso universo físico e mental são feitos de momentos, a partir de seis percepções sensoriais: visão, audição, olfato, paladar, sensações físicas e eventos mentais.

Requer prática para notarmos os sentidos sem nos perdermos em nossos condicionamentos. Mas lembre-se que a prática é ir além dos sentidos, percebendo reações sutis e formas automáticas que acontecem a partir de certos pensamentos. Reações como: humores, sentimentos e emoções.

Nosso hábito é de eliminá-los ou não reconhecer esse apego a nossa trama. Isto acontece particularmente quando observamos o movimento de certos ritmos, pensamentos, sentimentos, emoções e sensações, que se repetem incessantemente. Aqui nascem as dificuldades e as nossas reações.

Podem existir fantasias sobre relacionamentos, alimentação, saúde de terceiros e etc. Mas, a maioria destas sensações são as mesmas para nós, já ha muito tempo. Neste fluxo de fenômenos existem algumas repetições de comportamento que não gostamos e tentamos nos livrar. “Ah, não, a mesma coisa! Tudo menos isso”. Em tais casos ainda estamos a serviço da mente julgadora.

Por exemplo: quando algo em alguém que não gostamos surge, a mente se comporta como um taco de beisebol, batendo no que não se quer. Julgando, reagindo e se apegando. Isto não é observação. Observação é perceber como mente está reagindo, como o corpo físico experimenta esse evento, e quais sentimentos estão surgindo. Feito isso, observamos a nossa “possível reação“, e a partir de um estado de presença, abrimos mão da reatividade e fazemos uma escolha consciente. Podemos escolher o novo. Podemos pegar um novo caminho, que pode ser melhor ou pior, não importa. O importante neste caso é seguir por um caminho diferente. Isso vai permitir estarmos abertos para escolher viver esse momento, seja ele qual for, e não apenas julgar e reagir.

Com Mindfulness, estamos aprendendo a observar um novo caminho, usando a desidentificação como uma poderosa e balanceada ferramenta da presença. E podemos sentir e observar as mudanças no corpo físico, no coração e na mente, como um meteorologista observa as mudanças no clima: “Está nublado, o barômetro está alto, a temperatura está 80 graus, e o vento está sudeste”. “Espero que não chova hoje. Espero que faça sol como ontem. Está muito quente e a umidade absurda.” Com a prática nós simplesmente notamos o que está ocorrendo.

Nós devemos aprender que uma característica essencial da observação é a aceitação. Com a prática de Mindfulness (consciência plena), nós começamos a perceber as nossas reações, comportamentos e hábitos, não havendo a necessidade de lutarmos contra nós mesmos.

Pensamentos virão. Sentimentos virão. Sensações no corpo virão. E nós devemos simplesmente observar sem julgamento, sem medo, mas com um sentimento de gentileza, amizade e bem querer, por nós mesmos e para nos relacionarmos melhor com a vida.

Pedro Lôbo 
UC San Diego Center for Mindfulness
Treinamento em Mindful Self-Compassion