Então, você está meditando do jeito que foi ensinado, seu corpo e mente estão totalmente imóveis, acompanhando o fluxo da respiração… vai e vem, vai e vem… calmo, sereno e concentrado. Tudo está perfeito. Subitamente algo totalmente diferente vem a sua mente: “Eu gostaria de tomar um sorvete”. Logo você percebe ser uma distração que te tirou do estado alcançado, e com certa dificuldade arrasta novamente o foco para respiração, de volta ao fluxo sutil… vem e vai, vem e vai … E daí:” Paguei a conta de gás?”

Surge outra distração. Você novamente percebe isso e volta ao fluxo sutil… vai e vem, vai e vem … ”Aquele filme novo de ficção cientifica acabou de ser lançado. Talvez eu vá na terça-feira. Não na terça-feira tenho vários compromissos, vou na Quinta”.

Outra distração… você tenta voltar a respiração, mas dessa vez sem sucesso, porque antes que consiga uma voz interior diz: “Minhas costas estão me matando.”

E por aí vai! Outra distração e outra. Parece não acabar. Que saco!

Mas entenda, que isso é faz parte do processo. Essas distrações são importantíssimas, pois você precisa aprender a lidar com isso. Aprender a identificá-las antes de ser aprisionado por elas. Esta movimentação mental requer esforço, mas é o modo normal de operação da sua mente. Não as veja como inimigas, pois elas são a realidade. E se você quer mudar algo, a primeira coisa a se fazer é observa-las como realmente são.

A função da meditação não é se concentrar em sua respiração, sem interrupção, para sempre. Isto seria um objetivo fútil. O propósito da meditação não é atingir uma mente quieta e serena. Embora seja um estado adorável, não leva a libertação. O propósito da meditação é atingir uma estável Mindfulness.

A “distração” em uma meditação Mindfulness é qualquer preocupação que tire a sua atenção da respiração. E esta distração deve ser utilizada para a aplicação de uma técnica meditativa: Quando qualquer estado mental sobressai forte o suficiente para distrair você do sujeito da meditação, volte sua atenção para a distração, momentaneamente. Faça a distração um sujeito de meditação temporário e observe atentamente o pensamento que surgiu, para depois retornar ao fluxo sutil.

Quando você sentar para concentrar na sua respiração, verá o quão ocupada a sua mente é. Fica pulando de um lado para o outro. Corre atrás do próprio rabo. Fantasia e sonha acordada. Mas não fique preocupado com isso. É natural. Quando a sua mente sair do sujeito da meditação se distraindo com um pensamento, apenas observe a distração atentamente.

Não estou te aconselhando a trocar os cavalos do meio da corrida, pois a respiração sempre será o seu foco primário. Mude o foco para a distração até que você se atente para pontos específicos importantes, que são: O que é a distração? Quão forte ela é? Quando tempo leva? Assim que tenha respondido a estas questões, você terminou o seu exame de distração e pode retornar ao foco na respiração.

Entenda que este exame precisa ser minucioso, mas essas questões não devem servir para um convite a mais falação mental. Isto estaria o levando ao lugar errado, ao encontro de mais pensamentos. Porque, o objetivo é estabelecer um foco não conceitual na respiração, direta e sem palavras. Essas distrações são observadas para te proporcionar insights sobre a sua origem, e não para que você se perca nelas.

Nas primeiras vezes que tentar esta técnica, você provavelmente irá precisar de palavras. Porque, fará as suas perguntas com palavras, e receberá as respostas em palavras. Entretanto não demorará até que você possa dispensar a formalidade das palavras totalmente. Na prática, você notará a distração, notará as qualidades da distração, e conseguirá retornar rapidamente a respiração não conceitual.

Esta distração pode ser: um pensamento, um som, uma sensação, uma emoção ou uma fantasia. O que quer que seja, não tente reprimir. Não tente forçar para fora de sua mente. Só observe atentamente, examine a distração inteiramente, e ela irá passar.

Um dos pontos principais é: Não se condene por ter se distraído. Se você aprender a observar as distrações sem se envolver, certamente vai passar por elas e retorna a respiração. Considere que uma mesma distração pode aparecer novamente no futuro, e se aparecer, observe atentamente sem se aborrecer. Isto é natural. Não lute contra as distrações, pois é perda de tempo. Cada ponto de energia que você utiliza para ir contra, vai tornar este pensamento mais forte.

Distrações são como tigres de papel, elas não tem nenhum poder nelas mesmas. Precisam ser alimentadas constantemente ou morrem. Quando menor o esforço gasto com estas distrações, mais enfraquecidas elas ficarão. O segredo está na paciência e constância.

Be Mindful! 
Pedro Lôbo
UC San Diego Center for Mindfulness
Mindful Self-Compassion, MBSR e Mentor do Institute Mindfulness (UK/USA)